Crianças ansiosas? Dicas para ajudar as crianças a lidar com o stress.

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27 Abril 2017

 

Quem me dera ser criança! Tem a certeza?

 

A imagem da infância como tempo de liberdade e despreocupação pode estar em vias de extinção. Correr descalço, saltar à corda, trepar às árvores, brincar na rua, rebolar nos montes são momentos cada vez mais raros na vida de muitas crianças.

 

Segundo um estudo da Universidade de Michigan (2009), nos Estados Unidos, o tempo livre das crianças desceu de 45 para 25 por cento nos últimos 15 anos, e até a televisão se ressentiu desta falta de tempo.

 

O stress do estilo de vida dos pais é vivido também pelas crianças. A corrida contra o tempo pode começar logo ao acordar. “Despacha-te”, “Vamos chegar atrasados”, “ainda temos que ir ali ou acolá” são frases que as crianças começam a “não ouvir” pela saturação de estarem sempre a ser ditas. O tempo real de presença e conexão na relação pais-filhos fica muitas vezes em segundo plano.

 

A agendas hiper-ocupadas já não são coisas de “grandes”. Escola: das 9.00 às 17.30 (total recreio: 1h + 1h30 para almoçar), Dança: 18.00 às 19.00; 19.30 às 20.00 trabalhos de casa (se correr bem) ; 20.00 jantar e 21.00 dormir. Neste tempo conseguimos “brincar” no máximo 2h, normalmente numa área lisa de cimento.

 

A pressão pessoal, familiar e do próprio sistema educativo para fazer mais e ser o melhor podem danificar a auto-estima da criança. Coloca-se o foco no fazer e em objetivos externos (os ditos observáveis e mensuráveis) deixando em segundo plano o processo. Deixamos de ver a criança, o que ela é, como ela sente e o que ela vive, para a reduzirmos a nossa visão para o que ela faz, e sobretudo para o que ela não faz.

 

O excesso de ativação e constante “ter de fazer qualquer coisa” gera “stress” e ansiedade nas crianças (e nos adultos também!). O sistema nervoso para conseguir estar em equilíbrio necessita de alternar momentos de ativação com momentos de pausa. Com a crescente necessidade de ativação e de estar sempre a “fazer” qualquer coisa, os momentos de real pausa são cada vez mais raros.

 

Necessidade de movimento, necessidade de descanso, necessidade de tempo não estruturado e de bricadeira livre, necessidade de conexão e aceitação, necessidade de confiança e segurança, necessidade de auto-conhecimento e regulação, necessidade de parar. Com tantas necessidades a saltar como pipocas no corpo e com tanta falta de disponibilidade dos adultos para as reconhecer e satisfazer cria-se terreno fértil para sinais de alarme: insónias, ataques de pânico, agressividade, apatia, ....

 

Como podemos ajudar as crianças a lidar com o stress?

 

1. Assumindo responsabilidade pessoal pelo nosso stress. As crianças vão modelar a nossa forma de lidar com estes momentos intensos! Mais informações sobre MBSR aqui.

2. Observando e trazendo consciência para as nossas rotinas do dia-a-dia: é mesmo preciso correr tanto de manhã?; é mesmo preciso ter tantas atividades extra-curriculares?; é mesmo preciso fazer tantos trabalhos de casa?; o que é que poderíamos deixar de fazer ou fazer diferente para estarmos mais tranquilos e presentes?

3. Ajudando a criança a criar momentos de pausa no seu dia-a-dia: antes de sair de casa; antes de comer; antes de sair da cama, antes de sair do carro ... vamos olhar nos olhos? vamos ouvir os sons? vamos reparar na respiração? Vamos ficar em silêncio?

4. Ajudando a criança a redirecionar o seu foco para a sua experiência interior (emocional e sensorial): reconhecer o que se passa com o seu corpo, com as suas emoções e com os seus pensamentos: como está o teu coração agora? Que sentes nos pés enquanto andas? Quando é que te sentiste alegre na escola hoje? O que fizeram os teus pés hoje na escola?? E as mãos? (tenho também comprovado que é uma excelente forma de saber o que se passou na escola!)

5. Partilhar com a criança a nossa experiência interior (sensações e emoções): “hoje tive um dia difícil no trabalho: tive muitas reuniões e falei com muitas pessoas. Agora sinto que o meu corpo está sem energia e não me apetece ouvir barulhos fortes.” ou “Já reparaste no vento frio a bater na bochecha?”

 

Para apoiar uma criança num episódio emocional intenso:

1. Aceite a situação: observe sem julgamento o que está a acontecer

2. Responsabilize-se pelas suas emoções: reconheça-as e respire com elas

3. Conecte-se com a criança (com um abraço, com um olhar, levando-a para outro sítio, ...)

4. Quando conseguir condições para comunicar verbalmente, ajude-a a reconhecer o que está a sentir (pareces-me nervoso, frustrado, assustado, zangado, ...) e redirecione a sua atenção para a experiência corporal (como está o teu coração, respiração, músculos da cara, peito, etc?)

5. Ouça-a e esteja presente

6. Ajude-a a encontrar uma forma para lidar com este desafio (o que podemos fazer agora? Queres ajuda para ....? E se...?)

7. Reconte a história deste episódio noutros momentos, deixando-a descrever os detalhes da situação. (“No outro dia antes do teste de matemática ficaste tão ansioso que nem conseguias adormecer. A tua cabeça não parava de pensar, não era? Como é que estava a tua respiração, lembras-te? E o teu corpo? E o que aconteceu depois?”).

 

 

Nos Programas de Mindfulness para Crianças e Adolescentes criamos espaço seguro para redirecionamos a nossa atenção para o momento presente e para a nossa experiência interior. Aprendemos como funciona o nosso cérebro em situações de stress. Experimentamos a ligação entre o nosso corpo e mente e abrimos espaço para sermos mais autores dos nossos comportamentos. Com a prática, estas experiências são interiorizadas e ativadas até nos momentos mais intensos da nossa vida. Como referiu um aluno “com o mindfulness aprendi a parar antes dos testes e consegui acalmar!” (A., 8 anos).

 

Filipa Soares

Ser Integral: Centro Português de Mindfulness

 

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