Mindfulness na Dor

Artigo Publicado na revista Online EsmeraldAzul

24 Fevereiro 2014

 

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Todos nós sentimos dor física. A dor aguda apresenta-se normalmente associada a situações fisiológicas, como por exemplo intervenção cirúrgica ou lesão. A dor crónica poderá igualmente apresentar uma causa física, mas normalmente está associada a componentes emocionais e cognitivas como medo, raiva e dor emocional. Independentemente da natureza da dor, quando ela está presente queremos que passe imediatamente pelo desconforto que nos coloca e impedimento de funcionarmos no nosso equilíbrio.

 

Quando sentimos dor a última coisa que queremos é olhar para ela porque quando o fazemos parece que a dor fica mais forte e intensa. No entanto, isto é uma percepção ilusória porque quando olhamos para a dor estamos a permitir-nos experienciar na totalidade o que está presente naquele momento. Este é o ponto chave no mindfulness:

 

  1. Desenvolver a capacidade de observar a experiência do momento presente, independentemente de ser agradável ou desagradável.
  2. Aprende a investigar e observar a dor presente no corpo, sem qualquer julgamento, rejeição, ou crítica mental, as quais são reações que exacerbam a dor física e causam ansiedade e depressão.
  3. Identificar, observar e aceitar as emoções presentes associadas à dor
  4. Viver no momento presente com aceitação, porque o momento presente é tudo o que temos. O passado não existe, já passou e é apenas uma memória. O futuro é uma projeção que ainda não chegou e muito provavelmente não será como imaginamos.

 

 

As intervenções terapêuticas baseadas no Mindfulness como o Programa de Mindfulness para Redução de Stress e Desenvolvimento Emocional (Mindfulness-Based Stress Reduction – MBSR) têm demonstrado benefícios muito positivos na gestão da dor aguda e crónica (ex. artrite reumatoide, fibromialgia) após a participação no programa de mindfulness. Estes benefícios refletem melhorias significativamente positivas em termos de tolerância perante a dor, aceitação da dor, redução da percepção da dor, sintomas de ansiedade e depressão associadas à dor e aumento da qualidade de vida quando comparados com outras intervenções terapêuticas como programas cognitivos-comportamentais para redução de stress ou massagem terapêutica. Estes benefícios são mantidos meses após a participação neste programa demonstrando que os benefícios se estende para lá do período de intervenção terapêutica.

 

Observou-se que estes resultados a nível físico e psicológico poderão refletir alterações a nível neuronal: alterações em áreas corticais associadas ao processamento da dor (Grant et al., 2010), à avaliação antecipatória da dor (Brown & Jones, 2010), assim como atividade reduzida em várias regiões corticais associadas à reação emocional (Grant et al., 2011). Estes resultados refletem a maior capacidade dos praticantes de meditação (mindfulness) em observar a dor sensorial presente e redução da reação emocional (ex. aversão, ansiedade, depressão, raiva) perante a dor que são ferramentas desenvolvidas nestes programas de mindfulness.

 

Algumas estratégias de mindfulness para lidar com a dor de uma forma construtiva:

  1. Mindfulness de Exploração Corporal – é uma prática formal de mindfulness onde aprende a trazer a atenção e consciência para as diferentes áreas do corpo. Nas áreas onde a dor surgir em vez de reagir ou querer mudar a sensação presente – apenas observe, com aceitação. Observe o fluir de sensações que vão surgindo e desaparecendo.
  1. Mindfulness na Respiração – é uma prática formal de mindfulness que pode ser usada em qualquer momento do dia. Sente-se numa postura confortável e convide a sua atenção para a respiração. Note o movimento do ar a entrar no corpo e do ar a sair do corpo. Sempre que surgirem pensamentos sobre a dor ou dor no corpo apenas note a presença do pensamento/sensação no corpo, aceite sem criticar, julgar ou rejeitar a experiência, e volte ao momento presente, à respiração.

 

É esta capacidade de observar e estar com a dor no momento presente, com uma atitude interna de aceitação, que permite transformar a experiência da dor e melhorar sintomas emocionais associados à dor.

 

Dra. Carla Martins

Ser Integral: Centro de Mindfulness e Psicologia

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